Uma passagem histórica pela MPB

Uma Passagem Histórica pela MPB

Entre os anos de 1935 e 1942, vamos encontrar o mais perfeito cantor popular do Brasil, Orlando Garcia da Silva. Nascido de família pobre do Rio de Janeiro, o pai era limador da Central do Brasil, mas um grande tocador de violão, e Orlando deve ter herdado seu temperamento musical do pai, pois, ainda criança, cantava para a vizinhança do bairro onde morava, em Engenho de Dentro. Perdeu o pai aos 3 anos de idade, e a mãe tornou-se lavadeira para sustentar os filhos. Orlando abandonou os estudos para trabalhar e ajudar no sustento da família, só concluindo o primeiro ano primário. Passou por vários empregos, como entregador de marmitas, estafeta da Western, operário de fábrica, aprendiz de sapateiro e entregador de encomendas, quando aos 16 anos sofreu um grave acidente ao tomar um bonde em movimento, o que lhe valeu a amputação dos dedos de um dos pés. Foi um trauma que durou anos na sua vida
Orlando queria ser cantor, mas quase desistiu da empreitada quando foi reprovado no único concurso de calouros que participou – o de Renato Murce, da Rádio Phillips. Sua chance como cantor aconteceu por acaso, quando o compositor Bororó, cujo nome real é Alberto de Castro Simoens da Siva, o ouviu cantar sem microfone, no corredor da Rádio Cajuti. Bororó ficou muito impressionado com a voz de Orlando, levou-o ao Café Nice, o ponto de encontro dos famosos artistas do Rio de Janeiro e apresentou-o a Francisco Alves, o maior cantor da época e o homem mais influente do disco e da música popular brasileira na época. Chico Alves pediu que ele cantasse, mesmo sem microfone, e também ficou entusiasmado com a voz do rapaz. Não deu outra, lançou-o no seu programa da Rádio Cajuti. A partir dessa data, no ano de 1935, Orlando fez 152 gravações na RCA Victor, não só deixando Sílvio Caldas para trás, como também seu lançador Francisco Alves, conhecido como o “Rei da Voz”.
Entretanto, pelos idos de 1942 apareceu a grande desgraça na vida de Orlando, a Morfina. Droga hipnosedativa de alto poder de dependência, a morfina causa diminuição do tónus muscular e da coordenação motora, e seu uso continuado desorganiza o sistema nervoso autônomo. Quando o indivíduo fica dependente, a sua supressão ocasiona forte síndrome de abstinência, com sensação de morte, sudorese profusa, tremores taquicardia, e excitação psíquica. Nessa fase da dependência o usuário paga qualquer preço para obter a droga e, com o seu uso, cessar os efeitos da abstinência. Mas não foi só a morfina que acabou com a voz de Orlando Silva. O álcool e o tabaco tiveram também sua parcela de culpa. Sabemos que a fumaça quente dos cigarros é uma fonte causadora de laringite crônica. Essa tríade “morfina-tabaco-álcool” lesou mortalmente as cordas vocais do “Cantor das Multidões”, título concedido a Orlando pelo radialista Osvaldo Cozi, que se impressionava com as multidões de pessoas que assistiam suas apresentações pelo país afora.
Entretanto, em sete anos de franca produção, Orlando Silva gravou os maiores clássicos da música popular brasileira como: “Última Estrofe”, “Lágrimas”, e “Apoteose do Amor”, do compositor Cândido das Neves, o Índio; “Carinhoso”, de Pixinguinha e João de Barro; “Rosa”, de Pixinguinha; “Nada Além”, de Cústódio Mesquita e Mário Lago; “Sertaneja”, de Renê Bittencourt; “Dá-me Tuas Mãos”, de Roberto Martins e Mário Lago; “Número Um”, de Benedito Lacerda e Mário Lago; “Aos Pés da Cruz” de Marino Pinto e José Gonçalves.

Última Estrofe – 1935

Lágrimas – 1935

Apoteose do Amor – 1936

Carinhoso – 1937

Rosa – 1937

Nada Além – 1938

Sertaneja – 1939

Dá-me tuas mãos – 1939

Número Um – 1939

Aos Pés da Cruz – 1942

Em 1942 Orlando Silva estava no “fundo do poço”. As drogas venceram a batalha, e ele foi abandonado pela sua companheira Zezé Fonseca, brigou com os diretores da sua gravadora RCA Victor e ameaçou sair. A gravadora deixou-o ir, pois já estava de olho num jovem cantor de 24 anos, com estilo e voz semelhante à sua, chamado Nelson Gonçalves que, mais tarde, também se envolveria com as drogas. Mas isso é outra história. Agora falo como o célebre colunista social Ibrahim Sued: “depois eu conto”.

Josias Cavalcante
Especialista em Dependência Química e pesquisador da MPB.

One thought on “Uma passagem histórica pela MPB

  1. Orlando Silva foi sempre visto como uma das mais bonitas vozes já ouvidas no Brasil. Impulsionado pelo rádio, então em expansão, à época, ele se tornou um ídolo popular, ganhando do radialista Oduvaldo Cozzi a alcunha “o cantor das multidões”. Cativou críticos, músicos e intérpretes, daqueles anos e dos futuros. João Gilberto o elegeu sua maior influência como cantor. Caetano Veloso, Paulinho da Viola são outros célebres fãs de Orlando, já tendo evocado seu estilo em algumas gravações.
    A biografia de Orlando desperta quase tanto interesse quanto sua voz. Aos 16 anos, um acidente de bonde lhe custou três dedos esmagados e a posterior amputação de parte do pé esquerdo. A morfina usada para atenuar a dor voltaria à sua vida mais à frente, como dito no texto. Também passou a usar cocaína e heroína. As drogas afetaram decisivamente sua voz e seu prestígio. Porém, a extensão de sua voz foi sempre prestigiada.
    Entre suas gravações marcantes estão as de Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro); Rosa (Pixinguinha e Otávio de Souza), Lábios que beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo), Juramento falso (J. Cascata e Leonel Azevedo), Aos pés da cruz (Zé da Zilda e Marino Pinto), A primeira vez (Bide e Marçal), Nada além (Custódio Mesquita e Mário Lago) e Atire a primeira pedra (Ataulfo Alves e Mário Lago), entre outras.

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