O Lamento foi lamentável, mas nem tanto!

O Lamento foi lamentável, mas nem tanto!
Esse substantivo masculino que tem como sinônimos: pesar, mágoa, gemido ou queixume, vem do latim “lamentum” que é uma expressão de sofrimento. Referindo-se à música pode significar um canto triste, ou melodia melancólica.
Mas aqui, nas minhas considerações históricas sobre a nossa música popular, o termo teve uma importância capital na criação de um dos mais belos chorinhos do país. Tudo começou com o conjunto musical “Os Oito Batutas”, criado em 1919, para tocar na sala de espera do “Cine Palais” à convite do gerente Isaac Frankel, na cidade do Rio de Janeiro. Mas o grupo era tão bom e harmonioso que se tornou uma atração à parte, maior até que os próprios filmes exibidos na época. Era elogiadíssimo por notoriedades que frequentavam o cinema, como Ernesto Nazareth, Rui Barbosa e Arnaldo Guinle. O povo se aglomerava na poata do cinema para ouvi-los tocar. Criaram tanta fama que no dia 18 de janeiro de 1922 embarcaram para Paris, custeados por Arnaldo Guinle, empresário e desportista de renome da família Guinle. O conjunto “Les Batutas” como eram chamados em Paris era formado por: Pixinguinha, Donga, China, Nelson Alves, José Alves de Lima, José Monteiro, Sizenando Santos e J. Tomaz, que não viajou por motivo de doença. Fizeram tanto sucesso na França, que a temporada prevista para um mês, prolongou-se até o final do ano.
O estrondoso sucesso em Paris levou o jornalista Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados a convidá-los para uma homenagem no famoso hotel Copacabana Palace, cujo evento daria o “mote” para a criação de um grande choro da nossa música popular.
Aí começou o drama vivido por Pixinguinha. Como ainda acontece com os negros residentes no Brasil, a discriminação racial abalou o grande compositor e seus amigos do conjunto. Ao chegar na porta principal do hotel, o porteiro informou que lamentava, mas a ordem era que negros deveriam entrar pela porta do fundo. O modesto Pixinguinha, resignado, disse ao funcionário: “LAMENTO, mas sei que o senhor está cumprindo ordens”. Todos entraram pela porta dos fundos ouvindo comentários revoltados de Donga, que esbravejava: “que absurdo, que vexame, que vergonha, nós passamos”. Novamente o pacato e calmo Pixinguinha falou: “Eu LAMENTO, mas não vamos mais tocar nesse assunto”. Mas antes de de receberem a homenagem alguém de referiu ao fato, e lamentou o ocorrido. Pixinguinha, sempre resignado, mais uma vez falou: “Eu LAMENTO, todos lamentam, mas vamos evitar comentários”. O perspicaz DONGA percebeu a repetição da palavra e durante a noite fez a seguinte sugestão: “Pixinguinha você pronunciou a palavra “LAMENTO” três vezes, por que não escreve um choro com esse nome? Dessa maneira, baseado nessa lamentável ocorrência, Pixinguinha cria “LAMENTOS”. A Gênese da criação do choro, foi relatada pelo notável flautista Altamiro Carrilho no livro do escritor Julie Koidin, “Os Sorrisos do Choro”.

O choro era totalmente instrumental, até que em 1962, Vinicius de Moraes ao ouvi-lo várias vezes escreveu o poema para a melodia, mas nunca fez referências ao episódio do hotel, pois na verdade a letra não tem nada a ver com a versão apresentada. Altamiro conta que ouviu a história do próprio Pixinguinha de quem era muito amigo. O fato é que esse choro tem uma linha melódica triste, melancólica, o que se alinha à suposta inspiração do compositor.

Letra do choro Lamentos
Composição: Pixinguinha / Vinicius de Moares.

Morena, tem pena
Mas ouve o meu lamento
Tento em vão te esquecer
Mas, ai, o meu tormento é tanto
Que eu vivo em prantos, sou tão infeliz
Não há coisa mais triste meu benzinho
Que esse chorinho que eu te fiz
Sozinho, morena
Você nem tem mais pena
Ai, meu bem, fiquei tão só
Tem dó, tem dó de mim
Porque eu estou triste assim por amor de você
Não há coisa mais linda neste mundo
Que o meu carinho por você
Morena, tem pena
Mas ouve o meu lamento
Tento em vão te esquecer
Mas, ai, o meu tormento é tanto
Que eu vivo em prantos, sou tão infeliz
Não há coisa mais triste meu benzinho
Que esse chorinho que eu te fiz
Sozinho, morena
Você nem tem mais pena
Ai, meu bem, fiquei tão só
Tem dó, tem dó de mim
Porque eu estou triste assim por amor de você
Não há coisa mais linda neste mundo
Que o meu carinho por você
O choro Lamentos foi gravado por uma infinidade de instrumentistas e conjuntos, além de ser interpretado após ter a letra de Vinicius por artistas de renome. Considero as gravações de Altamiro Carrilho (flauta e regional) e a do grupo “MBP-4” como a mais graciosas e harmônicas.

Josias Cavalcante

One thought on “O Lamento foi lamentável, mas nem tanto!

  1. Da fusão entre a música para ouvir e a música para dançar surge o choro. Um gênero e um idioma, que têm em Pixinguinha um dos seus principais sistematizadores.
    É na geração de Pixinguinha que essa nova linguagem musical ganha forma.
    A forma de tocar tinha no compositor um virtuosismo, imprimindo um andamento acelerado, grandes saltos melódicos e a predominância dos agudos.
    A harmonia nas composições do multicitado compositor tem na cadência a sua variedade rítmica!
    Na música sob comento há uma batida constante e uma regularidade métrica. As inflexões melódicas se estruturam genialmente.
    O texto e os vídeos, objetos de uma pesquisa acurada, revelam a fecunda cultura do autor. Merece todos os aplausos. Parabéns! 🎈

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