De Gastão Formenti a Pablo Vittar

De Gastão Formenti a Pablo Vittar
Saudosismo é o gosto ou tendência para superestimar o passado. Pois bem, se há um passado que pode justificar qualquer superestimação é o nosso, aquele das décadas de 20 a 50, não obstante a sentida ausência de uma tecnologia arrasadora, sobra-nos razões para nos orgulharmos dele, notadamente quando nos referimos ao gosto musical. O choque de gerações em nossos dias é realmente brutal, quando nos imiscuímos no campo da música.
Por que desapareceram as canções, as valsas, as modinhas e as serenatas? Os namoros canoros, representados pelas serenatas somente viceja em sociedades tradicionais, que nos dias atuais seriam xingadas de machistas, isso significaria dizer: em sociedades nas quais os sexos desempenham papéis definidos e inconfundíveis. Ainda hoje temos nos ouvidos a frase escutada centenas de vezes em nossa infância “não faça isso menino; isso é coisa de mulher”, ou então, “não faça isso menina, isso é coisa de homem”; jamais se ouviu falar de mulheres seresteiras, empunhando um violão sob a janela dos seus amados. Coisa de mulher era ouvir no silêncio da madrugada a serenata, recebendo a emoção e recato num alvoroço reprimido, com o coração a saltitar pela boca, o galanteio melódico que lhe ofertavam. E a seresta ia pela madrugada adentro com formosas canções de Catulo, Cândido das Neves, Orestes Barbosa, Sílvio Caldas, Freire Junior, Newton Teixeira, Aldo Cabral, Benedito Lacerda e Joubert de Carvalho.

Tudo isso é bem verdade que esse gênero musical permaneceu território exclusivo dos intérpretes do sexo masculino, que pode muito bem ser recordado num episódio muito pitoresco. Nas décadas de 30 e 40, ocupava lugar de destaque no cenário do Rio de Janeiro, a figura de Luiz Peixoto, jornalista, ator e poeta, considerado um dos dez maiores letristas de todos os tempos. Embora jamais tenha surgido a mais tênue dúvida sobre sua intransigente “opção heterossexual”, Luiz apresentava a peculiaridade de escrever poesias “femininas”, como se fosse uma mulher contando a própria história. Várias de suas poesias foram musicadas e constituem até hoje clássicos do nosso cancioneiro popular. Foi assim que surgiu “Linda Flor”, conhecida nacionalmente como “Ai Ioiô”, lindo poema musicado como samba-canção por Henrique Vogeler e interpretada pela notável Aracy Cortes: Chorei toda noite e pensei // Nos beijos de amor que te dei // Ioiô meu benzinho, do meu coração, // Me leva pra casa, me deixa mais não!

Ainda no mesmo estilo, Luiz Peixoto fez “Na batucada da vida”, posto em samba por Ary Barros e cantado por Carmen Miranda: No dia em que apareci no mundo // Juntou uma porção de vagabundo // Da orgia // De noite, teve choro e batucada, // Que acabou de madrugada // Em grossa pancadaria!
Mas até aí, tudo bem, tratava-se de sambas, e de sambas-canções, gêneros que as mulheres tinham permissão para cantar. A coisa se complicou quando Luiz fez “Sussuarana” e Hekel Tavares musicou o poema em ritmo de canção. E complicou porque contava a história do “passo errado” de uma jovem rurícola, relatado pela própria vítima, tema que exigia imperiosamente uma intérprete feminina. Como mulher não podia cantar canção, ninguém hesitou: entregaram a peça a Gastão Formenti, de voz alta e anasalada, mas indiscutivelmente masculina. E lá ouvimos o bom e gentil Formenti a queixar-se de que o Zezé Sussuarana, terror das virgens sertanejas, o convidara para conversar numa estrada deserta, e, logo depois, a exprimir o temor de ser flagrado no comprometedor colóquio: A noite veio // O caminho estava em meio // E eu tive aquele arreceio // Que arguém nos pudesse ver……

Vale salientar que, mesmo na época, a coisa não pegou muito bem, mas nada importava; entre nós, valsas e canções eram para ser cantadas por homens, qualquer que fosse o tema. Portanto, é inútil negar, as claras manifestações machistas da época. Mas, como toda a regra que se preza, esta teve também sua exceção: Bidu Sayão – uma soprano brasileira, cantora de óperas e considerada uma das principais da Metropolitan Opera de Nova York, de 1937 a 1952 – gravou “Casinha Pequenina. Tu não te lembras da casinha pequenina // Onde o nosso amor nasceu, ai // Tu não te lembras da casinha pequenina // Onde o nosso amor nasceu // Tinha um coqueiro do lado //Que, coitado// De saudade, já morreu……
Postar Casinha Pequenina com Bidu Sayão

Cumpre notar que já nos tempos mais modernos, na segunda metade da década de 60, quando a nossa sociedade começou a deixar de ser mais tradicional, Ângela Maria, gravou Lábios que Beijei, Maysa e Eliseth Cardoso gravaram Chão de Estrelas, Serenata do Adeus com Clara Nunes e Modinha de Sérgio Bittencourt.

Mas no mundo moderno em que vivemos, com a confusão dos sexos chegando a extremos inconcebíveis, que lugar poderia ter a seresta? As valsas, tão masculinamente interpretadas por Carlos Galhardo? As canções românticas cantadas por Carlos José, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Nelson Gonçalves, Francisco Petrônio e tantos outros seresteiros.
Um notável humorista já falecido chegou a levantar a hipótese de que a “Deusa da Minha Rua” fosse…. um travesti. Todos sabemos que o êxito dos travestis aqui e alhures, se deve ao fato de terem eles contribuído para a derrubada dos tabus subconscientes, que tolhiam os homossexuais enrustidos na plena assunção de suas tendências. Chegamos então ao nosso prestigiadíssimo Pablo Vittar, um cantor drag queen produzido pela rede Globo de Televisão que jamais se enquadraria como um verdadeiro representante da música popular brasileira. Segundo Arnaldo Saccomani, conhecido pelo estilo sério e ríspido nos seus julgamentos em programas com os “Ídolos”, assim se expressou: “Pablo Vittar é a grande fraude da música brasileira e fruto da miséria cultural que assola o país”.

Josias Cavalcante.

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