Adesão do Pará – Um massacre histórico

Adesão do Pará
Um massacre histórico.

Ser ou não ser colônia de Portugal era uma grande dúvida no Grão-Pará, onde a influência portuguesa sempre foi muito forte na cidade de Belém, que, em 1816, completava duzentos anos e era conhecida como Santa Maria de Belém do Grão-Pará. Esse grande núcleo da Amazônia passara por um grande crescimento urbano, com vertiginoso crescimento populacional desde o final do século XVII. Desde o século XVII, as colônias portuguesas na América eram divididas em governos-gerais, sendo o país formado pelo Estado do Brasil e o Estado do Grão-Pará e Maranhão, este último compreendido por toda a Amazônia.

Belém, por sua forte colônia portuguesa e por estar mais próxima de Lisboa tinha muito mais contato com a Pátria mãe do que com o restante da colônia. Isso também agravado com a difícil navegação na costa brasileira, em função das marés e dos fortes ventos, sendo que a viagem entre Belém e Lisboa era muito mais curta do que entre Belém e Salvador.
Apesar de declarada a Independência do Brasil em 1822, faltava ao Grã—Pará se libertar dos laços coloniais que mantinha com Portugal. Apesar de existir um forte movimento nesse sentido, favorável à independência, os portugueses e a elite da cidade regiram de forma intensa. No dia primeiro de março de 1823, a burguesia portuguesa e os comandantes militares postularam um golpe, fecharam a câmara, prenderam os principais membros da insurreição e os antigos portugueses voltam aos seus cargos de poder, usando a força. Os insurgentes não dispunham de tropas, de artilharia e de munição o que era um grande empecilho para iniciar uma revolução. Par se começar um contra ataque era necessário um comando que se iniciou com o capitão Domiciano Ernesto Dias Cardoso, os alferes José Mariano de Oliveira Belo e Domingos Gonçalves Marreiros, o capitão Boaventura Ferreira da Silva o tenente-coronel José Narciso da Costa Rocha e o ajudante Manoel Lourenço de Matos. A estratégia era tomar à força o poder e declarar o Grão-Pará parte do governo do Brasil. Ao amanhecer pelo menos 100 homens partiram para tomar com uma ação rápida e de surpresa, o Quartel de Artilharia da cidade. Mas houve resistência e o cadete Antônio Bernal do Couto, se dispôs a começar a batalha entre partidários de Portugal e partidários da Independência. O capitão Boaventura intercedeu declarando que não fosse derramado uma gota de sangue de brasileiros. Não houve resistência à aproximação da força inimiga. O coronel Barata consegui prender 271 homens que foram condenados aà morte e enviados a Portugal, onde depois foram absolvidos. O golpe fracassara, mas não a revolução pela adesão. Mas o governo central temendo novos movimentos revolucionários trama um ataque fictício à cidade sob o comando do almirante inglês John Pascoe Greenfell, que ameaçava bombardear a cidade, se os partidários de Portugal não aderissem a independência. Na realidade, não havia esquadra, apenas um cerco ao porto de Belém, como acontecera nas demais províncias dissidentes.

Almirante John Pascoe Greenfell

No dia 12 de agosto, o brigue Maranhão aportou na cidade de Belém com Greenfell no comando. Para evitar que houvesse problemas se descobrissem da mentira tramada, prenderam os lideres portugueses no navio Maranhão. No dia 15 de agosto de 1823, o Grão Pará aderiu à Independência. Mas o Grão Pará ainda não estava totalmente livre do jugo português, pois foi criada uma Junta Provisória com quadros portugueses, o que ocasionava grande descontentamento, sobretudo pelo seu presidente Geraldo José de Abreu, português, coronel chefe do quarto regimento de milícias. Faziam parte dessa junta Félix Antônio Clemente Malcher e o cônego João Batista Gonçalves Campos. Logo em seguida os portugueses descobriram a farsa de Greenfell e este chegou a sofrer um atendado. O clima ficou muito quente, pois os portugueses ainda davam ordens em terras do Brasil. Inconformados os partidários da independência, foram buscar o cônego Batista Campos em sua residência para liderar um motim. Uma multidão de mais de 3 mil homens marchou para o Palácio Governamental e exigiu a demissão do português Geraldo Abreu, oficiais e funcionários, solicitando sua deportação para Lisboa, e a posse da Batista Campos como presidente da Junta. Mesmo com todas essas medidas houve arrombamentos e depredação de lojas portuguesas. Batista Campos e John Greenfell para evitar novos distúrbios colocaram regimentos armados para fazer rodas na cidade. Entretanto, no dia 16 de outubro, as depredações continuaram. Greenfell, para resolver o motim, mandou prender um militar de cada regimento envolvido nas depredações e decretou pena de morte desses cinco militares, que foram fuzilados. O cônego Batista Campos, que era líder do movimento, também foi condenado à morte, mas foi perdoado por interferência de membros da junta governamental. Porém foi preso no brigue Maranhão e deportado para o Rio de Janeiro. Mas a adesão do Grão Pará à Independência ainda não terminara. John Greenfell estava disposto a encerrar por meio da violência, qualquer levante popular ou militar. Com isso, no dia 17 de outubro, 256 pessoas, entre civis e militares, envolvidas nos distúrbios e depredações de lojas , foram presos e ficaram na cadeia até o dia 20 de outubro e depois encaminhados ao brigue Diligente que ficou conhecido como (Brigue Palhaço) onde foram trancafiados no porão do navio, um local com trinta palmos de comprimento, vinte de largura e doze de altura, com apenas uma pequena abertura para entrada de ar.

Brigue Diligente – (Brigue Palhaço)

Os presos ficaram nus, lutando contra o calor insuportável e se abanando com chapéus. Há informação que brigavam para conseguir beber um pouco de água de uma tina existente no local. Gritos horripilantes saiam do navio, e para completar, a guarda despejou dentro do porão uma grande quantidade de cal e fechou as escotilhas hermeticamente.


Não foi uma tragédia comum em tempo de revolução, mas um verdadeiro massacre no regime colonial. Não foi apenas a independência de Portugal era uma liberdade conquistada pelo povo real, negros, índios, brancos, pobres e tapuias.
Uma página triste na história do Brasil!

Josias Cavalcante.

One thought on “Adesão do Pará – Um massacre histórico

  1. A Província do Grão-Pará que à época era denominada Pará, que significa em tupi-guarani rio-mar ou rio grande, foi uma unidade administrativa dos períodos colonial e imperial, que se originou das Capitanias do Grão-Pará e do Rio Negro!
    Havia uma dificuldade grande de abastecimento, por razões geográficas.
    Os primeiros portugueses chegaram em 1616 e o marco inicial disso ocorre com a Fundação do Forte do Presépio, onde depois ocorreu a cidade de Belém!
    Muito precioso o texto, trazendo importantes informações históricas!

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