Sons de Carrilhões e João Pernambuco!

Sons de Carrilhões e João Pernambuco!

              O ano era 1955. Eu ainda um garotão de 15 anos de idade, já alucinado por música, e como tal, não me furtei de participar de um conjunto musical do grêmio do colégio onde estudava interno. O famoso Instituto Metodista Granbery, na cidade mineira de Juiz de Fora. Situada na Zona da Mata mineira, de clima ameno e agradável pela altitude, Juiz de Fora, cognominada a Manchester mineira, pelo seu pioneirismo como polo industrial, me traz recordações inesquecíveis. Nosso conjunto, chamado “Conjunto Granberyense”, me relembra muito a música “Sons de Carrilhões”. Lá ouvi pela primeira vez um solo em violão do famoso choro de João Pernambuco. Duas passagens me fazem lembrar a melodia. A pianista do nosso grupo, Suely da Cunha Horta, minha primeira namorada, – aqui cito Adelino Moreira “E eu que era seu primeiro namorado // De tão triste e amargurado // Nunca mais me enamorei”- cujo pai era um exímio violonista e amigo de Dilermando Reis, que por sua vez, sempre estava nas Alterosas pela amizade que tinha ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, o presidente Bossa Nova. Dilermando era professor de violão de Maristela, uma das filhas de JK, um mestre das cordas quando caiu nas graças do idealizador de Brasília. Cita a história que nem precisava anunciar a sua presença para adentrar no Palácio. Juscelino era fanático por violão, por serestas e Dilermando tornou-se uma espécie de Oráculo do governo que se desafiava a comandar o Brasil a partir da Novacap. Foi Dilermando, por exemplo, quem deu o nome de Catetinho á simbólica edificação em referência ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Ele comandava os frequentes saraus do Catetinho, ao lado do pianista Bené Fontes, os quais tinham liberdade de escolher o repertório de serestas, valsas e todas as canções que embalavam jantares. Não se podia tocar “Peixe Vivo”. Ninguém aguentava mais a canção tocada à exaustão nas visitas presidenciais nos canteiros de obras. Sueli me falava muito do Dilermando Reis e de sua gravação em disco de Sons de Carrilhões, que se deu em 1952. A segunda passagem, refere-se a outro colega do conjunto, Mauro Mendes de Sousa, mineiro nascido na cidade de Teófilo Otoni, o violonista do conjunto que sempre estava ensaiando o solo de Sons de Carrilhões. O que me chamou a atenção, é que todo estudante de violão, inicia seu aprendizado solando Sons de Carrilhões ou A Valsa dos Marinheiros. Ao retornar para Fortaleza minha paixão pela nossa música popular de boa qualidade se intensificou. Aqui mantive contato e tive a oportunidade de cantar, em noites boemias, com grandes violonistas da época como: Aleardo Freitas, Célio Cavalcanti, Pedro Ventura, Joãozinho do violão, Zivaldo Maia, entre outros. Todos solavam muito bem Sons de Carrilhões e outras músicas do Dilermando como as valsas “Abismo de Rosas” e “Se Ela Perguntar”Se ela um dia por acaso, perguntar por mim // Diga por favor, que eu sou feliz // É preciso a própria mágoa para disfarçar assim // Dissimulando a dor à sombra de um sorriso……
Pena que os grandes mestres da música brasileira estejam sendo esquecidos. Mas isso não vai me impedir de fazer uma pequena homenagem a João Teixeira Guimarães, o nosso João Pernambuco, que recebeu esse apelido no Rio de Janeiro porque contava e cantava coisas de sua terra natal, o Estado de Pernambuco. Já no início da 1900 era considerado um dos bambas do choro, ao lado de Quincas Laranjeira Zé Cavaquinho e Satyro Bilhar. Sempre compondo músicas de inspiração nordestina, baseada em cantigas folclóricas como é o caso de “Luar do Sertão, composta em 1911, considerado seu maior sucesso, que ficou creditado ao letrista Catulo da Paixão Cearense, como o único autor. No entanto, Pixinguinha, em entrevista fornecida no Museu da Imagem e do Som, afirmou que João Pernambuco já tocava a música mesmo antes de Catulo colocar a letra.
A história relata o seguinte: A música pode ter suas origens no coco “É do Maitá” ou “Engenho do Maitá”, que tem um autor anônimo. Esse coco pertencia a João Pernambuco e era supostamente transmitido a Catulo, de acordo com testemunhos de celebridades como Heitor Villa-Lobos, Mozart de Araújo, Sílvio Salema e Benjamin de Oliveira, publicado por Henrique Foréis Domingues no livro No tempo de Noel Rosa.

 

                   João Pernambuco era um homem muito humilde e analfabeto. Ele costumava reclamar de ser vítima de plágio de Catulo em relação à autoria da música. Segundo Segundo Mozart Bicalho, Catulo disse que Luar do Sertão era uma melodia do norte, que pertencia ao domínio do folclore. O próprio Catulo declarou em entrevista a Joel Silveira: “Compus Luar do Sertão ouvindo uma música antiga”. O historiador Ary Vasconcelos, na obra “Panorama da música popular brasileira” na belle époque, disse que teve a oportunidade de ouvir Luperce Miranda tocar duas versões da música: a original e a um modificado por João Pernambuco, que ele concluiu ser bastante semelhante.
O compositor e violonista João Pernambuco sempre primou pela beleza do seu talento musical e mostrou sua influência por várias gerações. Criou um repertório de “Choros” escritos especialmente para o violão que, segundo diz a lenda, o mestre Villa-Lobos teria dito que, “Bach não teria vergonha de assinar qualquer obra de João Pernambuco”. Sons de Carrilhões é considerado o choro mais importante e conhecido de João Pernambuco, com gravações feitas até no exterior. Em 1961, Vicente Celestino fez uma gravação cantada com versos de Lilia Fernandes. Aqui vamos registrar o lançamento pioneiro, de dezembro de 1926, de Sons de Carrilhões com João Pernambuco ao violão acompanhado de Nelson Alves ao cavaquinho, uma versão mais moderna com Dilermando Reis e Vicente Celestino interpretando em canção.

 

 

 

Josias Cavalcante.

One thought on “Sons de Carrilhões e João Pernambuco!

  1. João Pernambuco tem a grandeza que ultrapassou sua época e que será sempre a gênese para todo aquele que se interesse seriamente pela evolução da nossa música e da técnica do violão.
    A arte do mágico do Violão é natural, fluente e espontânea e nela se encerra toda sua característica musical, a técnica de harmonização e violonística.

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