Os Índios Tabajaras – Coisas do Ceará

Os Índios Tabajaras
Coisas do Ceará!

O mestre compositor nordestino Luiz Lua Gonzaga interpretando o baião do seu conterrâneo Guiomarino Rubens de Morais, conhecido como Guio Morais, diz que “No Ceará não tem disso não”.

Mas bem que tem, na música então, nem se fala, tem índio tocador que fez muito sucesso no sul do Brasil e no exterior. Pouca gente ouviu falar na dupla de violonista conhecida pelo nome de “Os Índios Tabajaras”. E eram índios mesmo, já aculturados e descendestes diretos dos “Tabajaras”, um povo indígena que habita o oeste do Estado do Ceará, na linda região montanhosa da Serra da Ibiapaba e nos municípios de Crateús, Poranga, Quiterianópolis,Tamboril e Monsenhor Tabosa.

                          Cita a história que dois índios cearenses, nascidos em 1918 na Serra da Ibiapaba, no município de Tianguá, membros de uma tribo Tabajara, se tornaram grandes violonistas no exterior. Eles teriam nascido Muçaperê e Herundy, nomes que significam respectivamente “terceiro” e “quarto” de uma fileira de 34 filhos do cacique Ubajara. Teriam saído com a família em 1933, levados para a Serra do Araripe, Cariri, no sul do Ceará pelo tenente Hildebrando Moreira Lima. Dali até 1936 foram três anos de caminhada até chegar ao Rio de Janeiro. A longa caminhada teria sido feita com 16 índios, os pais mais quatorze filhos. No transcorrer dela, teriam conhecido violeiros e cantadores. Atravessaram Pernambuco, Alagoas e à Bahia. No meio do caminho, em uma feira nordestina compraram uma velha viola e passaram a dedilhar sozinhos o instrumento. Posteriormente, trocaram a viola por uma cuia de feijão. Em Salvador teriam conseguido a proteção do governador, que lhes forneceu passagens para o Rio de Janeiro, onde chegam no início de 1937, quase quatro anos depois.
No Rio, foram registrados como Antenor e Natalício Moreira Lima, sobrenomes do tenente protetor. Em 1945 se apresentaram pela primeira vez como Índios Tabajaras na Rádio Cruzeiro do Sul e foram imediatamente contratados.
Aí começou a vida artística. Primeiro correram o Brasil. Em 1957 começaram carreira internacional pela América Latina, Argentina, Venezuela e México. Passaram a aprimorar a técnica, a estudar teoria com professores diferentes. Natalicio se especializou no solo e Antenor trabalhou a harmonia. Incluíram em seu repertório peças para violão de Bach, Falla, Albeniz e Villa Lobos. Usando violões clássicos e tocando transcrições de violino clássico e obras para piano, eles logo se viram tocando em toda a América do Sul. Finalmente seguiram para os Estados Unidos, com a imagem de índios sendo bem explorada pela RCA. Apresentavam-se de smoking para interpretar músicas eruditas e de índios para tocar música popular.

 

 

 

Em 1960 retornaram ao Brasil, aqui ficaram por mais três anos para depois seguiram novamente para os Estados Unidos, onde estouraram pouco depois com o bolero Maria Elena, grande sucesso em 1963 alcançando o top 10 das paradas dos EUA e Inglaterra.

                                 Em 1962 o duo Índios Tabajaras vendeu 1,5 milhão de cópias de sua gravação do clássico mexicano Maria Elena. Ficou 14 semanas no topo da lista dos discos mais vendidos do país, outras 17 semanas na Inglaterra. O LP seguinte também ficou entre os dez mais vendidos dos Estados Unidos. Ao todo gravaram 48 discos LP. O fato é que, ao longo dos anos, os Índios Tabajara foram sendo esquecidos no universo musical brasileiro, especialmente na confraria do violão, e mais lembrados pelo seu lado folclórico. Contribuiu, em muito, o estilo estandartizado da dupla, tipo “violão-feito-para dançar”, em vigor na época, e também o repertório, fortemente calcado na música mexicana.
Suas interpretações de “Valsa Criola”, do venezuelano Antonio Lauro, e “Valsa em Dó Sustenido Menor”, de Chopin, mereciam ser ouvidas por todos os jovens violonistas cultivadores da rapidez suja. Moonlight Serenade fica à altura das melhores interpretações do grande Oscar Aleman, que se especializou nela.

 

Deixaram seguidores de peso. O guitarrista Carlos Santana os menciona como sua lembrança musical mais antiga. O violonista Chet Atkins, falecido em 2001, era fã da dupla e gravou um álbum com eles e o pianista Floyd Cramer em Nashville.

Josias Cavalcante

One thought on “Os Índios Tabajaras – Coisas do Ceará

  1. Nossa! Que bela história, mas 34 filhos? O cacique Ubajara gestou ao mundo dois talentosos filhos, conforme está no contexto do texto. As composições dos Índios Tabajaras invadem a alma por extensão de sua beleza. Uma massa de som que arrepia e seduz, encanta e acalma. Os vídeos são de uma beleza venerável.

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