Gondoleiro do amor

Gondoleiro do amor

              O notável poeta baiano Antônio Frederico de Castro Alves, conhecido como o ”poeta dos escravos” – epíteto associado pelo seu entusiasmo diante das grandes causas da liberdade e da justiça, como a Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel da imprensa e acima de tudo isso a luta contra a escravidão – foi considerado um dos mais brilhantes poetas românticos brasileiros. Falecido aos 24 anos de idade, deixou maravilhas no livro “Espumas flutuantes”, o único que foi publicado quando o poeta ainda era vivo. O poema “Gondoleiro do Amor”, que está no livro concentra toda a face lírica do poeta, porque descreve o trajeto de um amor de início inconstante, que vai se concretizando e superando os elementos predominantes ao possuir uma mulher de carne e osso, afeita às sugestões de um cenário perfeito para a plenitude amorosa. O poema é uma barcarola dedicada a Eugênia Câmara, atriz portuguesa e o grande amor de Castro Alves. Vale ressaltar a associação da cor dos olhos da “dama negra” com a ideia de profundidade.

              É emocionante vermos um poema de Castro Alves, feito em 1866, ser musicado pelo pianista e compositor Salvador Fábregas, por volta de 1910, e interpretado pelo cantor Mário Pinheiro, considerado o mais importante da época. O poema musicado teve várias gravações posteriores como a de Vicente Celestino e da dupla Tonico e Tinoco, mas agravação que mais me agrada, pela tecnologia musical e seus intérpretes, é a de Dilermando Reis com Francisco Petrônio.

O GONDOLEIRO DO AMOR
Castro Alves

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar…
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
do Gondoleiro do amor.

Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;

E como em noites de Itália,
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
-Rosa aberta com o biquinho
Das aves rubras do céu.

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?…

Teu amor na treva é – um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa – nas calmarias,
É abrigo – no tufão;

Por isso eu te amo querida,
Quer no prazer, quer na dor…
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor

 

 

Josias Cavalcante

One thought on “Gondoleiro do amor

  1. A vitalidade da obra de Castro Alves, último grande poeta do nosso Romantismo, destaca-se na louvação do caráter afetivo nas suas genialidades líricas. Sua obra enfeixa, numa espécie de gran finale, uma linha de força ambrosíaca. Sua vertente lírica está bem caracterizada em Gondoleiros do Amor. Seu Condoreirismo embora paradigmático por suas antíteses e hipérboles ressaltam versos tersos e sugestivos, amalgamados em metáforas naturais, que expressam as experiências amorosas em sua plenitude sentimental.
    Versos belíssimos de exaltação da amada.
    As pesquisas dos vídeos acostados são sublimes de encantar.

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