A Bossa Nova nasceu em 1958 ou já existia?

A Bossa Nova nasceu em 1958 ou já existia?

 

 

 

            Revendo a história da nossa música popular, a Bossa Nova não tinha nada de nova quando surgiu em 1958, a não ser a batida do violão inventada pelo João Gilberto, executada na música “Bim-Bom”. O termo “Bossa” já era empregado por vários compositores, entre eles Noel Rosa em 1932, quando fez o samba “Coisas nossas” que dizia: O samba, a prontidão e outras bossas / São coisas nossas, são coisas nossas”.

                    O excelente violonista “Garoto”, de nome Aníbal Augusto Sardinha, nos anos 40 formou um conjunto com o nome “Clube da Bossa”. Baden Powell, Raphael Rabello, Paulo Bellinati, Yamandu Costa e Marcus Tardelli, só para citar alguns dos maiores violonistas brasileiros, consideram Garoto como o pai do violão moderno, o reformulador da linguagem harmônica do violão. As peças inovadoras de Garoto estão presentes no repertório de grandes instrumentistas da atualidade, em várias partes do mundo. O idioma musical de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, é bem evidente. Foi ele quem primeiro adotou no violão os acordes dissonantes com os chamados intervalos de sétima maior, nona e décima terceira, assim como os intervalos aumentados, que tanto se popularizaram no Brasil a partir da bossa nova. Garoto também explorava bem o desenvolvimento de melodias a partir da sequência de acordes. Em 1955, três anos antes do lançamento de “Bim-Bom”, por João Gilberto, que marcou o surgimento da Bossa Nova, Garoto compõe “Lamentos do Morro”, uma música cuja batida do violão apresenta muita semelhança com a batida da Bossa Nova

                   A estreia do Bossa Clube, liderado por Garoto, na Rádio Nacional se deu em 9 de outubro de 1945 no programa Alô Brasil e depois, com maior frequência, na Revista Souza Cruz. O grupo gravou alguns discos 78 RPM e se apresentou na Rádio Nacional de outubro até dezembro de 1945.
Na Rádio Nacional Garoto apresentou, com o conjunto Bossa Clube, o arranjo que fez para Holliday For Strings (D. Rose) no programa Revista Souza Cruz de 23 de outubro de 1945, às 20h30. Esse programa foi apresentado até o final de dezembro de 1945 e nele Garoto com o Bossa Clube apresentou os seguintes arranjos:

Ontem ao Luar (Pedro de Alcâantara/Catullo da Paixão Cearense), em 06/11.
Relâmpago (Garoto), em 13/11.
Minueto (Ignacy Jan Paderewsky), em ritmo de choro, em 27/11.
Ameno Resedá (Ernesto Nazareth), em 11/12.
Violão tenor (solista), violões, violino, piano, baixo, bateria e percussão são os instrumentos identificados.

Com o fim do Bossa Clube surgiu o “Clube da Bossa”, que estreou na Rádio Nacional em 13 de fevereiro de 1946, às 18 horas. O programa, com o mesmo nome do grupo, tinha duração de 30 minutos e foi ao ar até o dia 17 de abril.
O conjunto Clube da Bossa reaparece aos sábados, às 10h15, no programa Calendário Musical Ross (das famosas pílulas do Dr. Ross). Os mais velhos devem lembrar muito bem dessa vinheta que fez muito sucesso no rádio, apresentado por Carlos Palut.

 

             Numa nova entrevista concedida ao então cronista musical Alziro Zarur, Garoto afirmou: “Apresentarei oportunamente na Rádio Nacional o programa Senhor Violão, contando cada audição com músicas de um só autor. Exemplos: Músicas de Tárrega, Ponce, Chopin, Bach, Segóvia, Falla, Beethoven, Radamés Gnattali, Villa Lobos. Terei também oportunidade de apresentar músicas e arranjos de minha autoria. Quanto ao Clube da Bossa, que se apresenta terças-feiras às 17,45, oferecerá aos seus ouvintes uma série de arranjos modernos. Como se sabe, os componentes do Clube da Bossa somos eu, Zimbres, Vidal, Sebastião, Bide, Bonfá e, como crooner exclusivo, Lúcio Alves.”

Ainda nos anos 40, a expressão “Cheio de bossa”, também era muito usada no Rio de Janeiro, principalmente para fazer referência ao “samba de breque”, que apresentava um novo tipo de “bossa”, representada pelas paradas súbitas da melodia, com encaixe de frases como muito bem fazia o Moreira da Silva.

 

Confiram!
Josias Cavalcante.

 

One thought on “A Bossa Nova nasceu em 1958 ou já existia?

  1. Cantar é uma gestualidade oral, ao mesmo tempo contínua, articulada, tensa e natural, que exige um permanente equilíbrio entre os elementos melódicos, lingüísticos, os parâmetros musicais e a entoação coloquial. No mundo dos cancionistas não importa tanto o que é dito, mas a maneira de dizer, e essa maneira é essencialmente melódica. É a habilidade do cancionista que vai administrar e disseminar uma força de continuidade que irá se contrapor a uma força de segmentação (em fonemas, palavras, frases, narrativas, e outras dimensões intelectivas). Tudo isso misturado a melodia.
    Assim com essas formas diferentes e inovadoras exsurge a bossa nova, cujo gênero ultrapassou as fronteiras brasileiras, contaminando inclusive Frank Sinatra. Bem lembrado.
    Os vídeos acostados foram genialmente escolhidos. O texto faz um percurso na musicologia de forma bem pertinente. Um conteúdo fecundo.

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