O Fumo Passivo

O Fumo Passivo

                   Minha esposa é portadora de asma brônquica alérgica. Pelos idos do ano 2000, eu estava no restaurante Dallas, em Fortaleza para almoçar. Contíguo a nossa mesa estavam vários senhores que fumavam constantemente. O restaurante estava lotado, não tinha outras mesas desocupadas, então, educadamente, solicitei ao maitre que pedisse aos senhores para não fumarem, visto que, minha esposa estava se sentido mal e já apresentado sinais de dispneia. Simplesmente o maitre me respondeu que não podia atender esse pedido, pois os senhores eram juízes e desembargadores, e antigos fregueses da casa. Lembrei ao maitre que existia uma Lei Federal de No 9294/96 que proíbe fumar em ambientes fechados e pressurizados. Mesmo assim, ele não tomou providência e diante da piora do quadro respiratório da minha esposa tive que me retirar do local sem terminar a refeição. No dia seguinte fiz um artigo médico citando na íntegra o ocorrido e publiquei no jornal “Diário do Nordeste”. Fatos como esse ocorrem por todo o país, onde os fumantes ignorantes, letrados ou autoridades judiciais não respeitam as leis e agridem os cidadãos, as crianças, as gestantes, os idosos e os doentes.
Estima-se que a população mundial em 2019 será de 7,7 bilhões de habitantes. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2018, existiam 1,1 bilhão de fumantes no mundo, ou seja, 1 em cada 5 pessoas fumam algum tipo dos derivados do tabaco. Se levarmos em consideração que cada família tem três pessoas residindo sob o mesmo teto com um fumante, teremos 2,5 bilhões de fumantes passivos, o que corresponde a um terço da população mundial.
A poluição do meio ambiente pela fumaça do tabaco tem sido um dos fatores mais importantes entre os questionados pelo OMS (Organização Mundial da Saúde) e pela população não-fumante, que deseja respirar um “ar mais puro”, no lar, nos locais de trabalho e nos locais de lazer. No Brasil, apesar de existir a Lei Federal 9294/96, promulgada em 16 de julho de 1996, proibindo o fumo em locais fechados e pressurizados sem ventilação, seu conteúdo não vem sendo respeitado nos ambientes de trabalho, no próprio lar do fumante ativo e, principalmente, nos locais de lazer.
A despeito da grande dificuldade de se fazer uma avaliação precisa dos efeitos nocivos desta exposição à fumaça do tabaco, percebemos diariamente no nosso próprio organismo as consequências danosas da poluição tabágica.
Qual o não fumante que já não sentiu o desprazer de ir a uma boate, a um restaurante, a uma reunião, ou mesmo a uma visita, e teve de respirar um ar contaminado pela fumaça de cigarros? Essa agressão ao cidadão e ao meio ambiente é sentida e observada no dia-a-dia das pessoas que não fumam, e que, à revelia da lei existente, têm que suportar a poluição ambiental gerada pela fumaça dos cigarros. E como mais um agravante: se essa exposição ocorrer por tempo mais prolongado, o não-fumante sentirá ardor nos olhos, nas fossas nasais, dor de cabeça, pigarro e as vezes tosse seca irritativa. Se por acaso o não-fumante for portador de alergia respiratória, como rinite e asma, doença cardiovascular, se for criança, idoso ou gestante, as consequências de tal exposição serão ainda mais deletérias, podendo desencadear no individuo assim exposto os mesmos sintomas agudos de suas doenças crônicas preexistentes.
Afinal, o que é a fumaça poluidora do ambiente onde se fumam cigarros? Como se processa essa poluição?
Quando fumamos um cigarro, há formação de três diferentes tipos de fumaça, que poluem o meio ambiente: a primeira denominada corrente principal é aquela fumaça produzida na queima do cigarro, que é inalada pelo fumante ativo. A segunda corrente é a própria corrente principal que é exalada dos pulmões do fumante ativo. A terceira corrente, chamada corrente secundária, é aquela fumaça que evola da brasa do cigarro em combustão, entre uma tragada e outra, quando o cigarro está na mão do fumante ou no cinzeiro. Dessa maneira, a fumaça que contamina o meio ambiente é composta pela parte exalada da corrente principal e pela corrente secundaria que emana do cigarro aceso no cinzeiro ou na mão do fumante ativo.
É um simples raciocínio lógico entender que o fumante ativo, submetido a inalação da corrente principal sofre maiores consequências pela inalação dos componentes químicos da fumaça do cigarro do que o fumante passivo, já que aspira a fumaça quente a cada tragada. Resta salientar, que as partículas da corrente da fumaça secundária (aquela que sai do cigarro aceso na mão do fumante), são mais concentradas e têm um menor diâmetro do que as partículas da fumaça da corrente principal exalada pelo fumante ativo. Por esse motivo são mais facilmente inaladas e atingem com facilidade se depositam mais facilmente nos finos brônquios de alvéolos pulmonares. As concentrações de nicotina na corrente secundária são três vezes maiores do que na corrente principal, do mesmo modo que a concentração de substâncias cancerígenas têm uma concentração 50 vezes maior. Dessa maneira, quase toda a poluição ambiental tabágica (cerca de 95%), seja ocasionada pela fumaça da corrente secundária, que sai dos cigarros acesos entre uma tragada e outra.
Centenas de estudos médicos realizados nos Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e União Europeia, confirmaram que o tabagismo passivo pode comprometer as pessoas não-fumante, ocasionando, em menor proporção as mesmas doenças, tabaco-relacionadas, do fumante ativo. Isso vai depender do tamanho do local da exposição, duração da exposição, níveis de alcatrão, nicotina e monóxido de carbono do local da exposição, sistema de ventilação e filtração do local de exposição. o. De qualquer maneira, já está cientificamente comprovado que o fumo passivo é danoso para o não-fumante, ocasionando desde irritação da mucosa das vias respiratórias superiores e inferiores, agravamento das alergias respiratórias, além de aumentar a incidência de doenças cardiovasculares (infarto e AVC), doenças pulmonares obstrutivas crônicas e câncer do pulmão.
Referências:
1. BRASIL. Lei nº 9.294, de 15 de julho de 1996. Dispõe sobre as restrições ao uso e à propaganda de produtos fumígeros, bebidas alcoólicas, medicamentos, terapias e defensivos agrícolas, nos termos do § 4° do art. 220 da Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9294.htm .
2. Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Observatório da Política Nacional de Controle do Tabaco. Disponível em: http://www.inca.gov.br/observatorio-da-politica-nacional-de-controle-do-tabaco/convencao-quadro.
3. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
4. Cavalcante, J.S – O Impacto Mundial do Tabagismo – p. 87 – 95, 2002 – Editora Realce- Fortaleza – CE.

 

 

Josias Cavalcante

One thought on “O Fumo Passivo

  1. A fumaça do cigarro é apontada pela OMS como o maior agente de poluição doméstica ambiental. As pessoas passam 80% do seu tempo em locais fechados, tais como residências, hospitais, trabalho.
    Nesta fumaça se incluem mais de 4 mil substâncias geradas a partir de talvez 600 ingredientes do cigarro, muitas das quais tóxicas, causadoras de um abissal problema de saúde pública.
    Somente 15% da fumaça do cigarro são inalados pelo fumante. Todo o resto se dispersa no ambiente, expondo pessoas ao fumo passivo e sua letalidade.
    Afirmam que no cigarro pode haver até 4720 substâncias tóxicas, as quais têm ação farmacológica ativa, citotóxica, antigênica, mutagênica e carcinogênica.
    O tabagismo é a maior causa de mortes evitáveis. Acho que 6 milhões por ano em todo o planeta.
    Acho textos dessa natureza uma alerta sem limite, tendo um valor pedagógico inestimável. Parabéns.

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