Coronavírus – A luta contra o inimigo invisível.

Coronavírus!
A luta contra o inimigo invisível.

           Em 1918, exatamente há 102 anos, em plena primeira guerra mundial, o mundo entrava em desespero, não pela guerra em si, mas por causa de um inimigo invisível, que em 25 semanas matou mais pessoas do que 25 anos de AIDS. No começo, não parecia grande coisa. Quase todo mundo que pegava a gripe acabava sarando. Mas logo apareceu o grande problema, em determinado momento tinha tanta gente infectada que a taxa de mortalidade, de 2,5%, foi o bastante para transformar a metade do planeta num inferno. Escavadeiras passaram a abrir valas para enterrar montes de corpos, embrulhados em lençóis. Chegou uma hora em que parentes das vítimas deixavam os corpos na rua para ser recolhidos. Uma em cada 36 pessoas do mundo acabou morta. Era a gripe espanhola, causada por uma versão mais letal desse mesmo vírus de hoje, o influenza H1N1. Ela só agiu entre 1918 e 1919, mas foi o suficiente para matar 50 milhões de pessoas num mundo com 1,8 bilhão de habitantes. Mais do que o dobro de mortos nos 4 anos da Primeira Guerra Mundial.
À partir dessa hecatombe, cientistas de todo mundo passaram a estudar com afinco a virologia. Essa praga poderia acontecer novamente?
E surgiu sim, com as pandemias de gripe como: “gripe asiática”, em 1957, oriunda da China; a “gripe de Hong Kong”, em 1968, também oriunda da China; a “gripe suína”, em 1977, oriunda da China e a “gripe aviária”, em 1997, oriunda de Hong Kong. Epidemias que foram menos intensas, pelo surgimento de vacinas e maior conhecimento tecnológico adquirido pela ciência médica. Vinte e dois anos depois, talvez em setembro ou outubro de 2019, surge novamente na China na cidade de Wuhan, o novo coronavírus que está em plena ascensão, atingindo todos os países do planeta. Como é de se perceber, a China é o celeiro das viroses pandêmicas, e isto tem um explicação, as zoonoses regionais. Os vírus ou bactérias que infectam animais silvestres ou domésticos conseguem se “transferir” ou “migrar” para a espécie humana, ocasionando doenças e morte. “Spillover” é um termo inglês que pode ser traduzido como “transbordamento” e utilizado no contexto da ecologia para afirmar que um vírus ou bactéria conseguiu se adaptar e migarar de uma espécie de hospedeiro animal para outra. Foi o que ocorreu com o agente infeccioso causador da Covid-19.

      Vírus é uma partícula basicamente proteica que pode infectar organismos vivos. Vírus são parasitas obrigatórios do interior celular e isso significa que eles somente se reproduzem pela invasão e possessão do controle da maquinaria de auto-reprodução celular. São as moléculas de proteínas virais que determinam qual tipo de célula o vírus irá infectar. Geralmente, o grupo de células que um tipo de vírus infecta é bastante restrito. Existem vírus que infectam apenas bactérias, denominadas bacteriófagos, os que infectam apenas fungos, denominados micófagos; os que infectam as plantas e os que infectam os animais, denominados, respectivamente, vírus de plantas e vírus de animais. Na China se consome muita proteína de animais silvestres exóticos infestados por diversos tipos de vírus, as vezes não letais para esses animais, mas altamente virulentos e mortais quando colonizam as células do corpo humano. São as zoonoses que viraram doenças humanas, umas mais amenas e outras nem tanto. Podemos citar o vírus Hendra, que saltou de cavalos para seres humanos na Austrália em 1990, o Hantavírus, dos roedores, que causa febre hemorrágica grave nos humanos; O vírus Lassa, também provenientes de roedores que causa um doença hemorrágica febril grave; o vírus da febre amarela, que salta de macacos; o HIV-1, que tem procedência nos chipanzés; o vírus da Influenza pulam dos pássaros e o Coronavírus que coloniza morcegos. Aliás, os morcegos parecem ser um dos principais reservatórios para vírus potencialmente terríveis ao ser humano.
Mas o que são realmente vírus? São seres vivos?

       Os vírus não são constituídos por células, embora dependam delas para a sua multiplicação. Alguns vírus possuem enzimas. Por exemplo o HIV tem a enzima Transcriptase reversa que faz com que o processo de Transcrição reversa seja realizado (formação de DNA a partir do RNA viral). Esse processo de se formar DNA a partir de RNA viral é denominado retrotranscrição, o que deu o nome retrovírus aos vírus que realizam esse processo. Os outros vírus que possuem DNA fazem o processo de transcrição (passagem da linguagem de DNA para RNA) e só depois a tradução. Estes últimos vírus são designados de adenovírus, que circula livremente mundo afora e responsável pelo resfriado comum.
Os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios: a falta de hialoplasma e ribossomos impede que eles tenham metabolismo próprio. Assim, para executar o seu ciclo de vida, o vírus precisa de um ambiente que tenha esses componentes. Esse ambiente precisa ser o interior de uma célula que, contendo ribossomos e outras substâncias, efetuará a síntese das proteínas dos vírus e, simultaneamente, permitirá que ocorra a multiplicação do material genético viral. Em muitos casos os vírus modificam o metabolismo da célula que parasitam, podendo provocar a sua degeneração e morte. Para isso, é preciso que o vírus inicialmente entre na célula: muitas vezes ele adere à parede da célula e “injeta” o seu material genético ou então entra na célula por englobamento – por um processo que lembra a fagocitose, a célula “engole” o vírus e o introduz no seu interior.
Os vírus não têm qualquer atividade metabólica quando fora da célula hospedeira: eles não podem captar nutrientes, utilizar energia ou realizar qualquer atividade de biossíntese. Eles obviamente se reproduzem, mas diferentemente de células, que crescem, duplicam seu conteúdo para então dividir-se em duas células filhas, os vírus replicam-se através de uma estratégia completamente diferente: eles invadem células, o que causa a dissociação dos componentes da partícula viral; esses componentes então interagem com o aparato metabólico da célula hospedeira, subvertendo o metabolismo celular para a produção de mais vírus.
Porém, não têm metabolismo próprio, por isso deveriam ser considerados “partículas infecciosas”, ao invés de seres vivos propriamente ditos. Muitos, porém, não concordam com essa perspectiva, e argumentam que uma vez que os vírus são capazes de reproduzir-se, são organismos vivos; eles dependem do maquinário metabólico da célula hospedeira, mas até ali todos os seres vivos dependem de interações com outros seres vivos. Outros ainda levam em consideração a presença massiva de vírus em todos os reinos do mundo natural. Sua origem, aparentemente, é tão antiga como a própria vida e sua importância está ligada à história natural de todos os outros organismos vivos.
Feito essas considerações iniciais, vamos no deter no coronavírus, que parece que chegou para ficar, à semelhança de outros vírus que atacam de preferência o sistema respiratório.

Os pesquisadores produziram uma imagem detalhada da parte do SARS-CoV-2 – o novo coronavírus que causa o COVID-19 – que permite infectar células humanas.
Como falei anteriormente, no final de 2019, os primeiros relatos de uma infecção respiratória desconhecida – em alguns casos fatais – surgiram em Wuhan, China. A fonte dessa infecção foi rapidamente identificada como um novo coronavírus, relacionado àqueles que causaram surtos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) de 2002-2004 e Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) em 2012.
A Organização Mundial da Saúde declarou a doença resultante do novo vírus, COVID-19, uma emergência de saúde pública de interesse internacional. No início de março de 2020, o novo coronavírus – agora chamado SARS-CoV-2 – havia infectado mais de 90.000 pessoas em todo o mundo e matado pelo menos 3.100.
Como outros coronavírus, as partículas de SARS-CoV-2 são esféricas e possuem proteínas chamadas espinhos que se projetam de sua superfície. Esses picos se prendem às células humanas e passam por uma mudança estrutural que permite que a membrana viral se funda com a membrana celular. Os genes virais podem então entrar na célula hospedeira a ser copiada, produzindo mais vírus. Trabalhos recentes mostram que, como o vírus que causou o surto de SARS em 2002, os picos de SARS-CoV-2 se ligam a receptores na superfície celular humana chamados enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2).
Para ajudar a apoiar os rápidos avanços da pesquisa, a sequência do genoma do novo coronavírus foi divulgada ao público por cientistas na China. Uma equipe colaborativa incluindo cientistas do laboratório do Dr. Jason McLellan na Universidade do Texas em Austin e o NIAID Vaccine Research Center (VRC) isolou um pedaço do genoma previsto para codificar sua proteína spike com base em sequências de coronavírus relacionados. A equipe então usou células cultivadas para produzir grandes quantidades da proteína para análise.

Proteína de pico de SARS-CoV-2
Estrutura de nível atômico da proteína spike SARS-CoV-2. O domínio de ligação ao receptor, a parte do pico que se liga à célula hospedeira, é verde. UT Austin, McLellan Lab

O estudo foi financiado em parte pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas do NIH (NIAID). Os resultados foram publicados em 19 de fevereiro de 2020, na Science. Os pesquisadores descobriram que o pico de SARS-CoV-2 era 10 a 20 vezes mais provável de ligar o ACE2 às células humanas do que o pico do vírus SARS de 2002. Isso pode permitir que o SARS-CoV-2 se espalhe mais facilmente de pessoa para pessoa do que o vírus anterior.

A imagem do microscópio eletrônico de transmissão mostra o SARS-CoV-2, o vírus que causa o COVID-19, isolado de um paciente nos EUA. As partículas do vírus estão emergindo da superfície das células cultivadas em laboratório. Os picos na borda externa das partículas do vírus dão aos nomes dos coronavírus, em forma de coroa. NIAID-RML
Apesar das semelhanças na sequência e na estrutura entre os picos dos dois vírus, três anticorpos diferentes contra o vírus SARS de 2002 não conseguiram se ligar com sucesso à proteína do pico SARS-CoV-2. Isso sugere que as possíveis estratégias de tratamento com vacinas e anticorpos devem ser exclusivas do novo vírus.
“Esperamos que essas descobertas ajudem no projeto de vacinas candidatas e no desenvolvimento de tratamentos para o COVID-19”, diz o Dr. Barney Graham, vice-diretor do VRC. Os pesquisadores estão atualmente trabalhando em candidatos a vacinas direcionadas à proteína spike SARS-CoV-2. Eles também esperam usar a proteína spike para isolar anticorpos de pessoas que se recuperaram da infecção pelo novo coronavírus. Se produzidos em grandes quantidades, esses anticorpos podem ser potencialmente usados para tratar novas infecções antes que uma vacina esteja disponível. Além disso, os pesquisadores do NIH estão adotando outras abordagens para o tratamento do vírus.

Estrutura de nível atômico da proteína spike SARS-CoV-2. O domínio de ligação ao receptor, a parte do pico que se liga à célula hospedeira, é verde. UT Austin, McLellan Lab

O sequenciamento genético do coronavírus já foi desvendado em vários países. Estuda-se atualmente o seu RNA para fabricar antígenos específicos capazes de desencadear uma produção de anticorpos na fabricação de uma vacina eficaz. Acredita-se que em um ano teremos desenvolvido uma vacina que livre a população mundial desse terrível inimigo.
Josias Cavalcante
Médico Pneumologista.

3 thoughts on “Coronavírus – A luta contra o inimigo invisível.

  1. Muito interessante o texto sob comento. Didático e bem elucidativo.
    Acho que o que mais preocupa nesta pandemia é a transmissão por gotículas, teoricamente, um método de transmissão por contato direto ou indireto. As gotículas são geradas pelo indivíduo durante a tosse, espirro e no ato de falar. A transmissão ocorre quando as gotículas geradas por um indivíduo doente, e contendo o agente patogênico, são emitidos a curtas distancias através do ar e se depositam em mucosas do novo hospedeiro, como a mucosa conjuntiva, nasal ou bucal. As gotículas não se mantem suspensas no ar. Assim, o agente etiológico pode se dispersar pelo ar através de correntes de vento, e pode ser inalado por um hospedeiro suscetível em um mesmo ambiente ou localizada a longas distâncias, dependendo de características ambientais. Para estes patógenos é necessário o tratamento especial do ar para evitar novas contaminações, e as infecções em geral, se iniciam pelo sistema respiratório.
    Coronavírus humanos podem permanecer infectantes por dias em solução aquosa e secreções respiratórias em temperatura ambiente. Em regiões de alta densidade populacional, a transmissão direta de pessoa para pessoa é considerado a principal via de transmissão.
    Estamos numa crise descomunal saúde versus economia.

  2. Seu texto remete-nos primorosamente a Albert Camus, na sua obra A Peste. Camus nos convida ao recolhimento. Afinal quem não sabe ficar sozinho não conhece o sentido da liberdade. Ele diz que não se deve lamentar o isolamento. Assim como vivenciamos no Coronavírus A Peste ressalta a oportunidade para explorar nossa intimidade. A obra nos afirma que as piores epidemias não são biológicas, mas Morais. Nas crises, acrescenta, vem á luz o pior do homem egoístico, em contraponto ao melhor, os homens solidários.
    A Peste está ambientada em Oran e narra os estragos de uma epidemia. A propagação da peste leva as autoridades a impor um severo isolamento.
    Assim o Coronavírus nos exigiu buscar recursos para lidar com nosso exílio.
    Precisamos olhar além e este seu texto nos leva além. Esclarece de forma clara e didática nesta sensação de fatalidade, de estar nas mãos de uma calamidade sem fim!
    Aduz com maestria sobre o vírus! A informação é fundamental e você está sendo fundamental no esclarecimento dessa doença.

  3. Dr Josias Cavalcante seu artigo foi de uma importância valiosa diante de uma doença, nessa fase, misteriosa para a ciência. No texto está nas sublinhas que todos importam, merecem respeito e precisam ser incluídos no processo de informação científica.
    Afinal, a ciência, os esclarecimentos, as informações, a união, a solidariedade e a compaixão compõem com o amor, o conjunto do que precisamos para mudar isso. São uma espécie de vacina, um potente remédio e são alimentos insubstituíveis, assim como o respeito de cada um para consigo mesmo e todo ser humano, e o que ele representa. Diante desta terrível situação pela qual estamos passando, a vida precisa ganhar outros propósitos relacionados ao cuidado com os outros e conosco mesmos, pelo reconhecimento de nossa fragilidade orgânica, de nossa dependência de vínculos sociais, e da certeza de que somos mais fortes e menos vulneráveis se estivermos muito unidos, porque só assim poderemos superar os riscos deste excesso de adversidades.

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